O Mito do Violinista
O Mito do Violinista
Existe por aí um grande Mito, que acredito ser no meio sinfônico todo, mas principalmente entre as cordas, e mais vívido entre os Violinistas, onde você precisa estudar muito, ter a perfeição técnica do Heifetz, e se pá ter a mesma pompa, caso contrário você não será reconhecido minimamente pelo seu talento desenvolvido. Sim, tô exagerando muito, mas é bem por aí que as coisas acontecem de uma forma geral. E vejo essa cobrança sendo passada de geração em geração dos músicos sinfônicos, com uma soberba de sobra, e que na maioria dos casos isso não se encaixa com a história de vida daquela pessoa fora do meio Sinfônico, porém de tanto ser direcionado a isso, acaba repetindo esse comportamento.
O resultado mais triste que vejo dessa trajetória no meio do aprendizado sinfônico, é que tem muita gente no caminho que não consegue continuar na carreira por não corresponder às expectativas desse meio, sejam técnicas ou sociais. Se pararmos e analisarmos o meio das cordas, principalmente violinos, temos muitos exemplos de pessoas que não conseguiram seguir carreira em orquestras por insuficiência técnica para aquela área, e até aí tudo bem, mas muitos desses ficam completamente perdidos a partir do momento que percebem que não vão entrar em uma orquestra, afinal dedicaram muitos anos da sua vida pra isso, e agora não tem mais o que fazer, nem pra onde ir, e os boletos já estão batendo na porta, e agora o que fazer? Dar aula é uma opção, mas ainda vão se sentir insuficientes já que não são capazes nem de entrar em uma orquestra, e por conta disso, não conseguem cobrar o quanto precisam para se manter, e muitas vezes vão pegar salários super defasados.
Existem muitas maneiras de se viver de música, e a maioria delas não está conectada diretamente com o meio sinfônico. Em nenhum momento isso é incentivado durante o aprendizado de violino, o que é incentivado é ter repertório sinfonico e batalhar para pegar a estante da frente, até chegar a spalla, e se pá virar maestro.
Acredito que o estudo do instrumento, principalmente se tratando de projeto sociais onde o intuito é transformar a vida de quem está estudando lá, precisa se considerar coisas como contexto social, cultura local, e contemporaneidade.
Contexto social;
Se o estudante vem de um local com pouco ou nenhum saneamento básico, insegurança alimentar, insegurança de moradia, pouca ou nenhuma instrução sobre a sociedade, o mais interessante a se fazer é ensinar a esse indivíduo a conseguir sair dessa situação o mais rápido que ele puder, dando informação e meios para sair. Levar esse estudante pra Europa, conhecer os maiores teatros do mundo é lindo, mas não põe comida na mesa, nem tira a família de uma área de risco. Ensinar a como se inserir no mercado de trabalho é essencial para a maioria desses que estão em projetos sociais.
Cultura Local;
A vida do estudante é cercada por samba, pagode, modão, funk, axé, roda de rap, forró, graffiti, pixação, entre outras artes marginais, aí chega no projeto social e tem que estudar DO NADA mozart, bach, beethoven, e daí por diante todo o restante que ele viveu escutando não presta como arte para se trabalhar, ou se desenvolver artisticamente.
Viver a cultura local, impulsiona o aprendizado, impulsiona a busca pelo requinte técnico, faz ter vontade de conhecer mais das artes, tratar a arte local de forma pejorativa é ruim pra todo mundo. As artes são complementares, e não excludentes.
Contemporaneidade;
Vivemos na era da tecnologia, com computadores pra tudo que é lado. Hoje em dia a maior parte da população tem um computador no bolso. Temos que levar isso em consideração no ensino, mostrar possibilidades, incentivar a busca pela tecnologia, mesmo estando em contato com conhecimentos antigos.
Hoje em dia você tem a possibilidade de fazer música com um celular, sem gastar um real a mais pra isso. Aprender a lidar com a tecnologia, e como utilizá-la como ferramenta de trabalho e estudo é essencial nos dias de hoje.
Um aluno de violino que talvez não consiga evoluir tecnicamente por problemas de coordenação motora, pode se tornar um ótimo arranjador, produtor, pode trabalhar fazendo música em DAWs, pode trabalhar com transcrição de partitura, entre muitas outras profissões que a tecnologia dispõe pro mundo da música.
Além da parte tecnológica, temos também novos estilos musicais se formando, se consolidando, novas formas de abordar música, novas formas de se consumir música, de se vender música. Não podemos ignorar o nosso presente.
Você não precisa ser super evoluído tecnicamente para ter uma carreira musical, viver de música, viver da sua arte é muito mais que isso. E Viva a cultura popular!
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